segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Carta ao leitor

Eu poderia começar com uma metáfora, com alguma frase toscamente fantástica, com um pedido ou até mesmo com uma ironia. Mas hoje a conversa é só entre mim e você. Você que de alguma forma acompanhou mais ou menos a trajetória desses textos que fizeram parte da nossa história durante esse pouco mais de um ano. Porque um texto nunca é sobre mim, é sempre sobre nós. E os personagens, principalmente esse "eu", que foi tratado em diversos dos textos que me foram entregues de presente pela realidade (ou a parte dela que eu insisto em inventar), eles também têm vida própria. Sai o personagem, entra o escritor. E eu estou aqui para, pela primeira vez,falar de mim - o verdadeiro.

A iniciativa de começar esse blog surgiu no ano passado, quando por algum motivo obscuro (ou talvez seja a minha mania de achar que tudo é obscuro e nem seja tão obscuro assim) eu decidi que tinha que partir para algo maior. A minha vida inteira, tirando os primeiros escritos, foram sempre voltados para letras de música, dada a minha vontade constante de montar uma banda. A música sempre ocupou, dentre as artes, o espaço mais especial dentro de mim. Mas ano passado, por conta do afastamento dos projetos musicais em que estava envolvido, a literatura atingiu pra mim um ponto muito importante. Eu descobri que havia poesia além da letra de música, que as palavras poderiam ser inventadas e ressignificadas a todo instante. Porque as palavras não se encontram apenas nos dicionários. O que dá significado para elas é a vida. E o que é a arte senão uma grande homenagem à existência? Por mais que a melancolia tenha o seu espaço sagrado, o triste também faz parte da vida e é tão lindo quanto o doce gosto do amanhecer.

Foi nesse contexto que decidi criar o Fragmentos e Ideias, que para mim não passariam de frágeis tentativas de construir na prosa o que eu sempre fiz na poesia. A decisão de escrever um livro e a pouca experiência em prosa me levaram a um novo e desconhecido mundo, no qual as possibilidades de expressão são infinitas e a construção não é imediata, nua e crua, como na poesia. A poesia surge de dentro, do momento, é expressão verdadeira. A prosa requere mais um pouco de atenção, porque a invenção continua durante um maior número de palavras. No final, eu percebi que era tudo a mesma coisa. A prosa é poética, e a poesia é prosaica.

Eu nunca esperava que fosse conseguir escrever determinadas coisas que eu tive a oportunidade de criar nesse espaço. Nunca esperava que fosse ter o reconhecimento que tive por parte de algumas figuras muito importantes, que acompanharam o processo desde o início, e me deram forças para continuar escrevendo. Em determinados momentos, cinco texto em um mês; em outros, um único texto em cinco meses. Mas a criação é mesmo assim como a vida: acidentada, imperfeita, incerta. O fato é que personagens como Dadinho e os caipiras (que certamente serão parte de algum projeto futuro); textos mais críticos como A Revolução ou O espetáculo nosso de cada dia; os mais alucinados como O homem da pedra e a perda do homem e Anoitesendo, bem como os líricos Dizentregando e O presente do sol, todos esses fizeram parte de uma história. O blog foi um laboratório e um aprendizado que eu levarei para toda a minha vida, e sem ele, dificilmente eu passaria de um pretenso e talvez até exagerado poeta.

Como a maioria de vocês sabe, e quem não sabe agora tem a oportunidade de ficar sabendo, finalmente eu terei a oportunidade de começar a escrever o meu livro. Certamente, o projeto mais ambicioso de toda a minha vida, para o qual eu venho me preparando há mais de um ano, e que de uma forma ou de outra vai trazer à tona novamente diversos dos temas explorados já aqui, mas de uma outra forma. Afinal, o artista é aquele que diz mil vezes a mesma coisa, mas em cada uma delas de uma maneira distinta. Com isso, todas a minha força produtiva estará voltada para esse projeto, e eu anuncio que o blog ficará interditado por tempo indefinido. Não posso afirmar se voltarei a escrever nesse espaço, uma vez que acredito que ele já tenha cumprido a sua missão, e agora seja hora de avançar para projetos mais sólidos, de modo que à minha cabeça já chegam idéias para outros livros além do que eu tenho em mente nesse momento.

No mais, prometo mantê-los informados sempre que houver interesse em saber sobre o processo da escrita do livro, de forma a revelar algumas coisas básicas ao longo do mesmo. Claramente, nada que comprometa a surpresa da obra.

Finalmente, gostaria de agradecer a Dadinho, aos caipiras, aos mortos revolucionários, ao homem que perdeu a sua pedra, mas principalmente a vocês que acompanharam essa trajetória. Sem dúvidas, se hoje eu me aventuro e tenho pelo menos uma pequena dose de confiança para escrever o meu livro, é por causa de vocês que me apoiaram e acompanharam a trajetória desse espaço. O inferno e os anjos são todos dedicados a vocês!

Quanto a mim, seguirei escrevivendo. Desculpe por me alongar tanto. Na verdade, a única coisa que eu quis dizer nesse texto pode ser resumida em duas palavras.

Muito obrigado!

Tetu

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pollyana Morta

Venham, venham todos
Abram os olhos para ver
As crianças - todas elas
Acabaram de morrer!

Você já percebeu como está tudo maravilhosamente bem? É isso mesmo! Está tudo lindo apenas pelo fato de que poderia estar muito pior. Se há sempre como piorar, então a dor chegou ao fim! O sol voltará amanhã e mudará o significado do seu dia. Alguém apareceu e de repente tudo se encheu de esperança - o verde venceu mais uma vez! Os amores finalmente são eternos e eu nunca me senti tão bem em toda a minha curta existência. Eu vou pendurar uma foto minha na parede do meu quarto celebrando o reencontro do ser consigo próprio. Eu vou gritar pro mundo inteiro que eu sou feliz e que continuarei a ser. Eu vou escrever um pouco sobre como a existência está completa. Eu vou gritar que a vida é bela e que é linda de viver. E eu inclusive falarei a verdade, antes que as palavras enganem você.

Hoje eu acordei com vontade de chorar. E um aperto na garganta que me dizia que a noite continuaria pelo dia e que não adiantaria me colocar de outra forma. Hoje eu acordei com vontade de gritar, mesmo sabendo que de nada adiantaria, que você não me ouviria e que o mundo não iria comigo acordar. E a primeira música que me veio à cabeça me queria morto. Mas eu estou cansado. Eu mais uma vez apontei uma arma para minha cabeça e a dei embrulhada em meu coração para que a decisão ficasse para outra pessoa. Mas tudo bem, eu não me importo de morrer mais uma vez. O sol sempre volta, mas lá está ele iluminando tudo com os seus raios sem sentido, e você nunca realmente se emocionou por causa disso. Em verdade, você nunca entendeu o sol. Sua dor é de desespero, de angústia, de anti-perfeição. Mudança é de dentro pra fora. O seu sorriso agora me apavora, uma tristeza, algum sorriso sem memória. E só os loucos são felizes.

Eu estou cansado. Cansado de não chorar, de me substituir sempre por palavras que eu atribuo um sentido diverso do que você gostaria que tivesse. Eu preciso de um ombro pra chorar, de um pouco de sanidade pra enlouquecer. Eu preciso de alguns segundos, mesmo que eles não formem um minuto inteiro. Eu não adoro amores inventados, porque é por eles que eu realmente me apaixono. E eu não sei desinventar o amor. Você já percebeu como o certo só dá certo às vezes? Eu não pendurei Pollyana na parede do meu quarto. Deus está se masturbando pela raça humana inteira, mas o gozo divino, dizem por aí, ficará em eterna espera. Eu sei que poderia estar pior, mas o buraco já está ficando pequeno para mim. Eu não sei de que lado estou, se estou dentro ou se estou fora, se estou vivendo o eternamente em curtas doses do agora. As duplicidades são indistintas, e o espelho sempre está se partindo. E metade de mim vai chorando, e a outra metade vai escrevendo também. E eu já estou sentindo saudades do que ainda nem foi embora...

Eu não vou escrever contos de fada. No meu final ninguém viveu feliz para sempre. No meu final, só o que me resta é a incômoda companhia de mim mesmo. Qual é a mentira do dia? Eu não falarei de amores eternos. O amor é uma carta muitas vezes sem resposta. Mas você ficou para sempre esperando pela correspondência...A gente sempre acha que a vida tem que seguir o caminho mais fácil, quando o caminho mais fácil foi o primeiro que fugiu da vida. Emocionalmente morto. Quem nunca sofreu por amor, nunca amou com real intensidade. Quem nunca morreu por amor, nunca entendeu o morrer de verdade. Sem perder a razão, a vida não me deslumbraria mais. Eu descobri que o amor verdadeiro não é aquele que te impede de sofrer. Não é aquele que te ama de volta. Nem aquele que só te faz bem. O amor verdadeiro é aquele que muda uma vida. E é eterno num tempo chamado memória. As pessoas cadentes não realizam desejos, e nunca mais eu voltei a brilhar.

Sim, eu sempre encontro o sofrimento. Eu já me despi do medo do que ao meu é contrário. A primeira pergunta eu nunca sei responder. Eu agora tenho medo do anti-qualquer coisa. A mente aberta - parabéns pra você! - foi estuprada, violentada, escancarada. Não há nada de bonito nela, não venha festejar os resultados quando os meios quase me fizeram desistir. O meu segredo é que eu nunca pedi pra que ela ficasse assim. O que o mundo me mostrava muitas vezes me espantava, mas eu não tinha escolha. Porque os meus olhos estão sempre abertos, e o vício que assim os mantém sempre me diz que é melhor ir se acostumando do que os olhos voltar a fechar. Quem deixou você chorar assim? A dor é saber que você se enganou sozinho. Que construiu moinhos pra você mesmo derrubar. Pollyana fragmentada, partida, acabada. E não era assim que você esperava - mas a realidade é sempre uma ladra. E é hora de dizer adeus mais uma vez, quando mais uma vez o que eu mais queria era ficar. Seja desfeita a vossa vontade, assim na Terra como em qualquer outro lugar!

A sanidade é a prisão da mente, a felicidade é a morte da pena. Mas eu quero a mente livre e a pena hiperativa. Eu ofereço a minha tristeza de presente pra você. Brinque com ela, se encante com ela - se apaixone por ela, por favor! Fique à vontade, ela é toda sua - como se estivesse passando na televisão. Um dia havia chegado a hora de sair de mim, só que eu estou há muito tempo longe, e já é hora de voltar. Mas eu não joguei migalhas de pão pra marcar o caminho, e nunca sei como eu faço pra encontrar. Eu não vou me deixar cair mais uma vez, porque o chão pode para sempre me aprisionar. Overdose de realidade, mas você continua aí com um sorriso no rosto. Você já percebeu que está sorrindo? Você está respirando, ouvindo, (vi?)vendo. Você já percebeu como você está morrendo? Mas é mais fácil acreditar que a vida é o que te move antes de tudo acabar. Diga adeus a Deus.

O amanhã chegará, mas os sorrisos serão apenas momentos. A cada dia que acordo, há uma parte minha que ficou perdida no passado. O ontem me rouba a cada novo dia, e a cada manhã eu tenho que acreditar que eu ainda estou aqui. Não me trate como se você tivesse ido embora - não me faça propaganda, que eu não quero te comprar. Os beijos verdes eram mesmo de esperança? Tudo está tão confuso agora. Eu nunca me fantasiei no carnaval. O presente do sol não passou de um sonho - o horizonte nunca existiu. Era apenas eu acreditando no que via, alimentando o que sentia pra depois saber que enquanto a minha alma chorava, o meu rosto sorria, sem significado algum. A felicidade é feita de cocaína - o destino de tudo é o pó. E ninguém está lá pra entender que mesmo em pé, eu estou caindo. Ninguém pra me oferecer a mão, ninguém pra me dizer que está me ouvindo. E eu fico mudo pra sempre.

Apague a luz.
Me deixe deitado.
Eu não quero descobrir o que irá acontecer.
Deixe Pollyana descansar em paz.
Feche os meus olhos - o que você fez?
Fui um ser a menos,
mais uma vez.

domingo, 27 de novembro de 2011

A Montanha Mágica ou Um Milhão de Vocês

No final, quem nos perdoará, já que nós não perdoamos a quem nos tem ofendido? Falar sobre as mesmas mil coisas, de mil maneiras distintas. O que muda é só a capa; o amargo é sempre constante no final. O final, sempre achei dele um belo assunto a ser tratado no início. Quem não gostaria de saber o que se passou no escuro depois que a luz se acendeu?

Falar sobre uma montanha. É uma dessas mil coisas. Algo posto em meio ao nada, destinada a tudo ser. E eu, um ponto, um conto, subindo sem muito sobre ela saber. Nunca sei aonde o fim dela vai dar, mas sei que é por causa dele que eu subo. Não me pergunte quanto tempo faltará até que eu atinja o seu topo, até porque ele pode nem existir. O mistério é o que sempre me moveu. E eu de vez em quando penso como deve ser estar lá em cima. Pode ser realmente o final? Não é por causa disso que eu escrevo, é apenas uma maneira melhor de poder chorar. Não é por causa disso que eu sofro, é apenas uma maneira de melhor poder falar. Ou talvez de fazer rimas sem sentido...

Tudo começou há muito tempo. Porque a montanha começa antes que a gente possa saber que está nela. Em verdade, quando nos percebemos enquanto seus fiéis alpinistas, já havíamos começado a escalar. A sua vida sem você, antes de você se reconhecer. Você que me colocou na montanha e depois desapareceu - como que dizendo suba sozinho, é assim que sempre vai ser - um dia voltou, mas ficou perdido para sempre. Uma parte do seu ser que me fez ser, que me fez crescer, nunca mais voltou. Talvez seja por isso que até hoje a falta é uma constante presença enquanto subo a montanha. E foi assim que tudo começou - da ausência. E um dia eu percebi que era eu mesmo que me faltava..,e
c
a
í!

Eu ainda me lembro quando eu soube que existia pela primeira vez. Você me segurava pelos braços e dizia que meus prazeres tinham sido comidos pelo teto. O concreto ensurdecedor, esmagador das duplicidades, anti-metafórico, anti-simbólico, anti-eu. E eu, também devorado, talvez tenha tido a consciência de mim mesmo no momento em que pela primeira vez me perdi. E comecei a perder minhas muitas partes toda vez que alguém ia embora. É que eu, durante a subida, em cada pessoa encontrada, em cada palavra trocada, sempre gostei de me deixar um pouco como lembrança. Ainda que depois ninguém se lembre de nada. Mas eu sempre sentia saudade. Foi aí que eu descobri que saudade mesmo é aquela que a gente sente muito antes de dizer adeus. E quanto mais eu subia, mais a montanha crescia e o fim dela ia ficando cada vez mais distante. Só a presença do concreto, que me devorava, sabia algo sobre mim. E tudo era tão certo quanto o concreto, tão óbvio quanto o sol, tão real quanto a felicidade. Foi então que eu comecei a ter certeza de tudo. E até criei asas e comecei a voar.

Lembro-me de quando parti a língua em mil pedaços. O sangue que saía da minha boca enquanto eu gritava por socorro, e você vindo em minha direção com um copo na mão, querendo provar a minha dor. Tão bonito; fica mais bonito ainda sofrendo! Em meio à montanha, sem ninguém pra me ajudar, perdi a língua, desaprendi a falar. Desde então comecei a escrever. Em verdade, falando, eu nunca consegui encantar ninguém. Escrevendo eu juro que posso mover a montanha, nem que seja apenas a parte dela que existe apenas na minha cabeça. A subida nunca termina...mas nós um dia terminaremos: .

E você apareceu de uma maneira linda, e eu dizendo que te amava enquanto você brincava de jogos de guerra. E mesmo assim eu nunca desistia; eu com um poema na mão e você inventando mil novas maneiras de dizer pra mim que não. E assim meu coração se partiu em pedaços pela primeira vez, e foi então que eu aprendi a chorar. Mas quando o coração se parte, as lágrimas são de sangue, e os meus olhos começaram a sangrar. E canções legionárias eram a única coisa capaz de salvar a minha vida, e então eu me apaixonei pela segunda vez. Mas, como sempre, o meu espaço na montanha é apertado demais para mim mesmo, e obviamente eu não me importaria de ceder um pouco mais de espaço pra que você se sinta melhor. Dizem que um coração partido só pode ser cicatrizado com o amor. Mas a cola do amor pra mim sempre foi mais como uma grande tesoura...

E eu querendo te amar de verdade e você querendo me matar outra vez. E me matou algumas outras, e o meu coração já podre atrofiado arrebentado - será que ainda existia? - cansou de bater. E eu odiei o meu amor - mas nunca odiei você. O concreto me ensinou que existiam amores eternos, necessidade de quem se ama e um exército de coisas que pra mim representavam a verdade. Mas a montanha nunca foi feita de concreto, e a verdade, pior ainda: é feita de nada. E eu, ser experimental, exemplo da montanha, passei a acreditar que as minhas asas voltaram a crescer brilhando de alegria, pois cresciam por você. Debaixo das asas, um milhão de vocês.

Hoje eu sei que cada passo que eu dou na montanha é mais uma chance de ver demais e saber de menos.

Eu também já cheguei a parar. Sim, por um momento eu achei que não havia mais pernas para subir a montanha. E foi então que tudo ficou escuro e eu por um momento nunca mais me olhei nos seus olhos. Sim, porque os seus olhos são o meu espelho, e eu só me enxergo em espelhos partidos. Você que não gostaria de partir os seus olhos por achar que assim ficaria cego, enquanto eu tenho certeza que partir os olhos em pedaços é a maneira que mais poderá te aproximar da verdadeira imagem da montanha. Eu quase deixei que o meu corpo caísse e saísse rolando por ela, retornando aos mesmos lugares pelos quais havia passado, até que pudesse mergulhar de cabeça em retorno à minha origem. O início da montanha - de volta ao útero da existência. De volta ao anteser.

E sim, foi no momento em que eu carregava aquele concreto em minhas costas, que parecia ter me acompanhado em toda a minha existência, que eu usei as duplicidades pela primeira vez. Sim, foi no momento em que eu tive certeza de que o concreto nunca poderia se partir que ele se fragmentou em infinitos pedaços, os quais até hoje eu não consegui achar. E bem no meio da montanha se abriu um buraco, e foi exatamente nele que eu fui me encontrar.

E eu não podia estar realmente caindo fatalmente fugindo e a mente chorando e o corpo sorrindo e o tapete puxado e eu desesperado não sabia não fugia não podia nunca nunca nunca aconteceria nunca poderia o concreto se quebrar mas o medo que eu tinha do concreto que partia era o medo tão incerto de jamais me encontrar e fui caindo me perdendo me enterrando sem voltar e achei tudo muito estranho muito louco muito fora do lugar e foi então que sem sentido comecei a retornar e quando assim abri os olhos quase cegos pra olhar eu vi a vida dividida repartida em meu lugar e o mundo fora ia parando já tentando me encontrar eu estava bem na frente tão mudado diferente que me acharam transparente e não puderam me enxergar...

E assim na subida da montanha pela primeira vez tudo me pareceu estranho. Sem o concreto em minhas costas, tudo ficava tão leve, e tudo tinha que ser decidido por mim. Eu, que apenas sabia dizer como eram as coisas, nunca de fato soube o que elas eram de verdade. E então a montanha me mostrava que cada pedra tinha diversos lados, apenas eu tinha que saber pra qual dos lados iria olhar. Meu problema, obviamente, era querer olhar para todos eles ao mesmo tempo.

Muitos olhos eu vi durante a subida da montanha. Alguns mudaram a minha vida só por piscarem de longe, outros trouxeram consigo o brilho do sol, os erros que cometeram, as dúvidas que tiveram. Todos, no entanto, sempre me fizeram muito sentido. É que eu sempre achei que os olhos são a melhor maneira de escrever um poema. Eu já escrevi poemas com os olhos, mas nunca aprendi realmente a chorar. Alguns acham que isso é ser louco, eu penso que é apenas não ser. Eu ouço aquela música e tenho certeza que ela foi feita pra mim. Eu ouço você falar eu te amo e posso jurar que era eu quem podia ouvir isso mais de perto. Em verdade, eu só ouço mentiras. A música não me ama, e você é algo nunca feito para mim.

Eu não pendurei Pollyana no pé da montanha. Eu não disse que ficaria até o fim. Eu nunca falei que os sorrisos eram a parte constante do meu dia. Mas eu sei o peso de um sorriso verdadeiro. Eu também já senti a dor do fim com um sorriso que derramava lágrimas. Mas fui eu que gritei por socorro, pensando que você poderia me ajudar. Sou eu que peço mil vezes um sentido, quando ao mesmo tempo o que me diverte é o sentido ir procurar. Eu não te faço promessas, mas te faço poemas. Eu não falo só de mim, eu falo também de você. O amor não correspondido e as lágrimas de alegria. Masturbação angelical. O amor engravidou no início da loucura e deu à luz ao sentido que se espera no final. Mentira estampada na matéria da sua cara. E você virando um novo alguém. Até mesmo a montanha agora é pós-moderna. E tudo isso é tão normal...

E assim seguimos. Eu, você e a montanha. A montanha que não segue, apenas nos persegue. Isso sem jamais sair do lugar. E você me olha e me faz mil perguntas com sentido, e não há mais nenhuma que eu possa responder. Porque a montanha há muito me é estranha, eu só faço subir, já deixei de entender.

E
você
segue
vivendo
mudando
escalando
crescendo
procurando
um sentido
e os sentidos
te perdendo
e no topo
você chega
e de novo
vai descendo
procurando
pelo fim
mas o fim
sempre se...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O erro dos seus olhos

- Ei. Seus olhos...há algo de errado com eles.
- O que poderia haver de errado com meus olhos? Talvez eles sejam um pouco tristes sim, mas que mal pode haver nisso?
- Não sei. Eles não são tristes. São apenas...diferentes. E errados.
- Os meus olhos estão sempre errados. Talvez a tristeza seja algum tipo de erro, por isso que é tão fácil de confundir.
- Não sei. Parece que eles estão sempre procurando alguma coisa...
- Sim. Acho que eles estão sempre procurando uma parte de mim que está faltando por aí. Se eu precisar, você me ajuda a encontrar?
- Você sempre fala coisas desse tipo?
- De que tipo?
- Como se você sempre dissesse exatamente o que a gente espera ouvir.
- Não; eu só falo o que eu sinto. Você espera ouvir o que eu sinto?
- Não, mas muitas vezes você me faz ter certeza de que é a mesma coisa que eu sinto também. Você fala como se quisesse conquistar quem te ouve pra sempre.
- Deve ser. Dizem que os sentimentos estão acabando por aí...e eu tenho muito medo de não falar tudo o que eu sei sobre eles antes que eles realmente acabem. Se isso te incomoda, me desculpe. Eu realmente posso ser muito chato às vezes. Eu falo mil vezes sobre as mesmas coisas, eu sempre acho que tem algo faltando, e a inquietação para mim é a parte constante do dia. É que eu só sei ser assim, pelo menos por enquanto.
- Não, não me incomoda. Eu gosto do seu jeito, embora eu nunca tenha visto ninguém assim. Por que os sentimentos estariam acabando?
- Não sei. Eu, pelo menos, ainda sinto bastante. E sentir deve ser uma coisa muito estranha, porque as pessoas estão sempre me olhando de um jeito esquisito.
- Vem cá, você existe mesmo? Nunca conheci ninguém que falasse exatamente o que sente.
- Por enquanto,ainda acredito que eu exista sim. Amanhã posso já não acreditar, quem sabe? E não se preocupe, ninguém é capaz de falar exatamente o que sente. Uma palavra jamais será mais bela que uma lágrima.
- Eu acho que nesse momento o que você diz é mais bonito que uma lágrima. Eu não gosto de lágrimas. Sorrir é tão mais legal!
- Sem lágrimas, os sorrisos seriam um erro. Afinal, o que sabe sobre sorrisos quem nunca chorou?
- Você sabe de sorrisos?
- Não.
- E por que anda sempre sorrindo?
- Porque sei menos ainda sobre as lágrimas. Os sorrisos, nunca fui capaz de entendê-los muito bem. Eles me vêm com muito mais frequência e por isso mesmo muito menos significado. As coisas sérias e especiais acontecem pouco, e ficam tanto tempo sem acontecer de novo que você acha que esqueceu como é que se sente quando elas acontecem. E é aí que elas voltam a acontecer. Eu dou risada por tudo porque pouca coisa me faz verdadeiramente sorrir. Afinal, quem é que vai rir por você? Mas nada pode ser tão verdadeiro quanto uma lágrima. A tristeza existe por si própria. A felicidade, a gente tem sempre que procurar.
- Você é sempre assim pessimista?
- Em verdade, eu tenho medo.
- Medo de quê?
- De ficar sozinho.
- Ah, mas isso todo mundo tem.
- É, mas comigo sempre foi diferente. Eu sempre gostei de ficar sozinho, tem vezes que eu realmente queria sumir. Mas eu jamais conseguiria lidar sozinho com a minha mente e com a minha loucura. Eu vivo numa guerra diária contra mim mesmo. Eu tenho medo que as pessoas que eu amo me deixem sozinho, porque amar sozinho me deixaria realmente louco.
- Você sempre sabe sobre tudo. Você sabe voar?
- Só quando estou sonhando. E você, sabe amar?
- Só quando não estou amando. E será que alguém sabe de verdade?
- Não sei. Eu estou tentando descobrir uma coisa. Tem me ocupado o dia inteiro, e eu não paro de pensar nisso.
- E o que é?
- Como será que se morre de amor?
- Deus do céu! Como é que eu vou saber?
- Não sei. É que eu já morri muitas vezes, mas nenhuma foi de amor. Acho que por isso eu fiquei sem amor nenhum.
- Nunca pensei em nada disso! Como você consegue?
- Eu não sei. Eu sempre me achei diferente, mas nunca nada realmente demais. Eu não gosto quando me acham muito especial.
- E você não é?
- A única coisa que eu faço demais é querer estar com os olhos abertos a todo momento. E sabe o que acontece com olhos que querem ficar assim o tempo inteiro?
- Não.
- No final das contas, por mais que eles vejam muita coisa boa, derramarão lágrimas. Nenhum olho pode suportar por muito tempo a realidade, ela faz os olhos arderem. Talvez seja esse o erro dos meus olhos.
- E por que você está me dizendo isso?
- Acho que porque você é uma das coisas que eu tento enxergar assim.
- Eu? E desde quando eu sou motivo pra você querer abrir os seus olhos?
- Você é um dos meus poucos motivos pra muitas coisas que me têm acontecido.
- É? E quando eu for embora?
- Você ainda ficará.
- Mas e se eu for embora?
- Não interessa. Você vai ficar para sempre.
- Não, não vou não. Eu posso ir embora a qualquer momento.
- Sim. Você pode ir embora. Mas acontece que o que você deixou pra mim vai estar comigo pra sempre. Há vidas que mudam em segundos, e há pessoas que mudam todos os segundos de uma vida. O que é muito bom acaba logo, mas suas consequências fazem com que o sempre não seja apenas aquilo que sempre acaba.
- E agora, claro, é a hora que você diz eu sou a pessoa da sua vida, que não vive sem mim e que você vai me amar para sempre, certo?
- Eu não diria que você é a pessoa da minha vida, mas que você é uma das pessoas que mais fazem com que o hoje não seja um dia qualquer. Eu não vou dizer que eu não vivo sem você, mas que viver sem você agora seria como apagar a luz na melhor parte da festa. E eu não vou te amar para sempre; eu te amo agora e para sempre é só o quanto isso mudou a minha vida.
- Nossa! É isso que você acha de nós dois?
- Não.
- E o que você acha de nós dois?
- Nós não temos a menor possibilidade de dar certo juntos.
- Como assim?
- Nós dois somos o reflexo do absurdo. Algo improvável, que não tem como funcionar por muito tempo.
- E por isso mesmo não vale à pena tentar?
- Você deixaria de viver só porque tem certeza de que vai morrer no final?
- Claro que não!
- Então, é a mesma coisa. Eu sempre falo pra mim mesmo: não tem a menor possibilidade de dar certo. E ao invés de fazer como a maioria das pessoas, que sairia fugindo na hora, eu vou e me jogo com mais força ainda, porque alguma coisa vai me restar no final. Nem que seja algumas doses a mais de confusão.
- Umas doses a mais de confusão? Isso faria de você um louco?
- Não. Isso apenas faria do final uma grande loucura.
- O final é sempre o começo de algo novo.
- Sim, o final é um grande paradoxo.
- Me responde uma coisa. No final, você trocaria tudo por uma única coisa?
- Eu não sei responder sobre o final quando ainda estou só começando. Mas eu acho que o final é exatamente a troca de tudo por uma única coisa.
- Talvez seja uma grande descoberta.
- Eu fiz uma grande descoberta.
- E qual é?
- Eu descobri o erro dos seus olhos.
- E...?
- Eles parecem conter todos os segredos do mundo.
- Mas isso é impossível! Não se pode saber todos os segredos do mundo.
- É claro que pode. É só uma questão de quando
- E quando é que isso vai acontecer?
- Quando eu aprender a voar, você aprender a amar e alguém nesse mundo morrer de amor.
- E você acredita realmente nisso?
- Não.
- E como pode dizer que vai acontecer?
- Acreditar ou não, que diferença faz? As coisas acontecem a todo momento pelo mundo e ninguém precisa acreditar nelas pra que elas aconteçam. Quem precisa de crença são as pessoas.
- E em que você acredita?
- Nesse momento, eu acredito nos seus olhos.
- Mesmo que eles sejam só segredos?
- Principalmente porque eles são só segredos.
- E não te assusta o não saber?
- Me assusta o saber em exagero.
- Talvez então alguém já tenha morrido de amor, eu já saiba amar e você já saiba voar. Quem vai saber?
- Só os seus olhos sabem.
- E por que eles não contam pra gente?
- Porque eles querem que a gente descubra sozinho.
- Eu não consigo entender.
- Sabe...há um segredo bonito sobre o erro dos olhos.
- E qual é?
- O bonito dos erros é que eles sempre são uma parte do acerto. Não importa o que aconteça, olhos errados sempre atraem outros olhos errados. Até que um dia eles se transformem em alguma coisa maior do que isso.
- E esse dia chegará?
- Sim.
- Quando?
- Você aceita trocar o erro dos meus olhos pelos segredos dos seus?
- Sim.
- Então esse dia já chegou.
- Como assim?
- É que nós acabamos de trocar tudo por uma única coisa.
- Mas isso não seria o final?
- Não.
- E o que é isso então?
- É apenas uma forma de transformar os segredos, os erros e os olhos.
- E no que eles se transformam depois disso?
- No acerto de nós dois.
- Mas nós não éramos impossíveis?
- E quem disse que não se morre de amor?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O invisível inferno do anunciado anjo

Era lindo, o Gabriel. Pelo menos era o que todos sempre disseram durante toda a sua vida. Um menino maravilhoso, um exemplo para os primos, orgulho da família, profeta dos amigos! E que orgulho ele fora capaz de provocar em todos os familiares ao nascer. O primogênito, o primeiro homem da nova geração! O pai não aguentava de felicidade, a mãe e as tias achavam que o mundo havia se tornado um lugar melhor para se viver. Todos celebravam energicamente o início da vida daquele pequeno pedaço de esperança. Que futuro teria pela frente! O primeiro neto, o primeiro filho, o primeiro sobrinho. De Gabriel, sempre se esperava que fosse o primeiro em tudo. E como era lindo!

Quem não se lembrava do dia em que conseguiu, precocemente, erguer-se sobre as duas pernas? Quem não se lembrava de como, por conta própria, conseguia (não sem alguma dificuldade, que seja contada a verdade)ler as revistas em quadrinhos que os pais lhe compravam antes mesmo da alfabetização? Quem não se lembrava do lindo poema que fizera aos oito anos de idade para celebrar as festas de fim de ano? Quem não se lembrava que sempre fora o melhor aluno da turma desde quando as turmas começaram a existir em sua vida? Claro que todos lembravam. Gabriel, o futuro perfeito personificado. Gabriel que segundo o seu pai seria um grande médico, e segundo sua mãe um grande advogado. Gabriel que segundo Gabriel; quem se importava? As pessoas aprenderam a esperar demais de Gabriel. E o lindo Gabriel aprendera que jamais poderia decepcionar ninguém.

Amigos, sempre teve muitos. Dos mais diferentes tipos. Sempre gostava de que seus amigos fossem amigos entre si, e a turma só fazia crescer. Era bem verdade que em certos momentos andava mais com uns, e tempos depois com outros, mas as amizades sempre se mantinham. Gabriel, a quem todos iam pedir conselhos. Gabriel, que jamais poderia dizer que estava tendo dificuldade em alguma coisa, porque ninguém acreditaria. Gabriel, a quem todos ouviam como a palavra da verdade. Gabriel, o exemplo que até Deus gostaria de ter tido. Gabriel, como era lindo!

Ninguém notou quando alguma coisa começou a mudar. No meio de tanta perfeição, Gabriel sentiu-se imperfeito. Afinal, quem havia sido de fato durante todo aquele tempo? Sabia que não poderia decepcionar ninguém, que era amado por todos, que tudo se esperava dele...mas ele nunca havia pedido nada daquilo. Os holofotes passaram a iluminar os olhos de Gabriel, e a única coisa que se refletia era o avanço de uma frieza quase lírica. Gabriel, de quem todos falavam, mas que nunca deixaram falar. Gabriel, que poderia ser qualquer coisa, mas era apenas o que todos diziam. Afinal, quem ainda duvida de como Gabriel era lindo?

Foi no meio dessas reflexões que uma dose permanente de tristeza se tornou a lei do seu olhar. O que provavelmente o deixou ainda mais lindo para todos à sua volta. Gabriel, antes disposto, animado, tornou-se recluso, ensimesmado. Gabriel, um ser rarificado. Gabriel, um ser violado. Gabriel, um ser sem saber. Gabriel, inexplicavelmente perfeito.

Foi num desses dias que chegou em casa após uma festa completamente bêbado. Sem conseguir andar por si só, dois amigos o acompanharam até seu apartamento, para que fosse possível deixá-lo em segurança. Os pais abriram a porta assustados, e ao verem o filho naquele estado, agiram com a maior naturalidade. A primeira providência do pai foi pegar uma câmera fotográfica, afinal o primeiro porre era algo a ser registrado! E na foto tirada era possível ver Gabriel, lindo, engatinhando no chão, prestes a vomitar o conteúdo alcoólico que havia ingerido. Gabriel, lindo como sempre! E a câmera captando com alegria o que para ele era um momento de pura desintegração. A mãe, após colocá-lo para dormir, se dispôs a limpar a sala, completamente vomitada. E ao olhar para o estado da sala, achou que o vômito de Gabriel era lindo, quase poético; pensou até em escrever um livro sobre o assunto. Não hesitou, portanto, em guardar uma amostra do feito histórico num frasquinho de vidro.

Começou a fumar maconha logo após isso. E para os pais, era só de brincadeira. Gabriel conversava com os amigos sobre coisas ininteligíveis, se perguntava sobre quem de fato era, sobre o que todos esperavam dele, sobre o que ele queria de fato para si. Mas o mundo não estava interessado nisso. E Gabriel começou a ser visto por alguns como muito louco, já que ele era apenas o garoto lindo e assim para sempre seria. Ficar se questionando demais, o que ele pretendia, enlouquecer? Todo mundo sabe perfeitamente quem é, por que Gabriel não poderia também? Qual era a dúvida que isso poderia suscitar? A vida era algo bastante razoável; para que diabos Gabriel ficava se importando com esse tipo de futilidades? Perda de tempo, diziam. Perda de beleza. Perda de Gabriel...

Uma das poucas soluções que Gabriel encontrou para a sua situação foi o Rivotril. E a sua companhia passou a ser constante, já que dormia às vezes quatorze horas seguidas depois de alguns comprimidos. Dormindo, o dia acabava mais rápido, e ele se livrava de ser tão lindo. Chegou por essa época a ficar com os pensamentos confusos, e a única coisa que seus pais, seus avós, seus familiares e seus amigos faziam era notar o óbvio: como era lindo o Gabriel com sono!

As viagens de ácido eram a única coisa brilhante na sua vida. E adorava colocar músicas pra tocar e ficar naquela viagem lisérgica onde as luzes brilhavam mais que os raios do Sol e o mundo parecia um caleidoscópio fantástico, puro, lindo. Lindo como nunca Gabriel conseguiu se achar, apenas ouvia levemente os outros. E as imagens cortadas, como se fossem várias fotografias superpostas. Deitar no chão e ficar ouvindo a música, que penetrava em seu corpo, que mexia com cada fio de cabelo seu, era uma experiência que mudou para sempre a vida de Gabriel. A realidade colorida...o reconhecimento das duplicidades...

Cocaína foi o próximo passo. De um jeito que ele não saberia dizer bem como mas numas mil vezes mil vozes mil mil mil maneiras de ficar ou não de ser ou não de aparecer mas certamente ele pensava em como poderia ser ele mesmo aliás como era mesmo o nome daquele filme que havia visto outro dia não sabia não lembrava e o coração tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum tum será que vai parar puta que pariu não relaxa relaxa isso pensando em que merda porque ninguém consegue entender o que eu sinto se o que eu sinto é simplesmente o que todo mundo vê mas talvez ninguém consiga me ver de verdade porque eu acho que talvez já tenha sumido mesmo e que mais isso ou mais daquilo e tum tum tum tum...

No entanto, o vício mesmo veio por uma menina. A conheceu num dia, sem que soubesse exatamente como fora parar no local em que estava, sem que soubesse exatamente se era quem ele era ou se era alguma coisa mais próxima do nada. A menina. Pela primeira vez, alguma pessoa que via um Gabriel defeituoso, quebrado, partido. O verdadeiro Gabriel, seja lá o que isso significasse, exposto pela primeira vez. "Você parece terrível", foi a frase que ela disse. A primeira pessoa que não achou Gabriel lindo. A primeira pessoa que o enxergou como ele era. Foi amor à primeira frase. Mas a menina viciante terminou indo embora...

E Gabriel voltou pra casa naquele dia com uma sensação de que depois de todas as drogas que havia experimentado, a pior delas era a realidade. Gabriel, um anjo caído. Gabriel, pertencente ao inferno. Gabriel que entendia muito pouco sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre a menina. Gabriel que ao se olhar no espelho naquele dia, não se achou lindo como todos falavam pra ele. Gabriel, cansado de ser Gabriel. Gabriel, cansado de ser alguém que não era. Gabriel, simplesmente cansado. Gabriel, de asas cortadas. Gabriel decidiu não ser...

No dia seguinte, quando a sua mãe entrou no quarto e o viu deitado de bruços numa posição estranha, com alguma coisa parecida com talco saindo de sua narina direita, teve certeza de que ele não estava apenas dormindo.Chamou o pai. E os dois passaram muito tempo ali olhando, refletindo sobre tudo. Quanto futuro teria aquele garoto! Quantas conquistas ainda estariam por vir! Seria perfeito, talvez o melhor do mundo no que fizesse. Certamente, Gabriel havia passado por alguns problemas. Certamente eles não foram capazes de compensá-lo. Certamente algumas coisas deveriam ter sido feitas e não foram. Gabriel, morto de overdores. Gabriel, que já não era mais. E foi nesse momento que os pais chegaram a uma conclusão monumental. Olharam para o filho e tiveram certeza de uma coisa. Gabriel, apenas um corpo, ao lado daquilo que o havia matado. Dentro daquilo que o havia matado. E os pais, que pouco disso entendiam.

Mas de uma coisa eles tinham certeza.
Como estava lindo o Gabriel!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dezenovesendo

Eu também já traí quem amava. Eu já pensei muitas vezes antes de agir, mas também já agi muitas vezes antes de pensar. Eu já acordei de um sonho acreditando que ele era real, e já me deparei com a realidade acreditando que ela fosse um sonho. Eu já senti o amargo gosto de acordar no dia seguinte torcendo pra que tudo não tivesse passado de um grande pesadelo, mas era a mais pura verdade que eu havia posto tudo a perder. Eu já acreditei que estava acima de tudo, que nada poderia me atingir, que a vida era muito clara e que sempre havia uma solução pra tudo. Foi quando eu caí, e o espelho em que eu me deparava, tão puro, tão límpido, se partiu em mil pedaços e eu morri pela primeira vez. Confesso que morri, isso por muito ter vivido. Eu já chorei lágrimas de sangue, que é o jeito que o coração arranja pra dizer que se partiu. Eu já me achei algo do mais completo sentido, e também algo sem sentido algum. Eu sinto constantemente saudades do que nunca fiz. Perfumes me fazem lembrar coisas impossíveis. Eu já criei histórias fantásticas que mudariam tudo se eu ainda pudesse delas me lembrar. Eu já sonhei com pessoas que nunca conheci na vida. Eu já conheci pessoas que me ajudaram a continuar acreditando nos sonhos. Eu também coloquei a minha cabeça no travesseiro e pensei sobre mil coisas ao mesmo tempo, a metade sono brigando com a metade expectativa. Eu exagero a realidade pra poder lidar melhor com ela. E mais recentemente eu tenho sérios problemas de assimilação da mesma. Acho que me atrapalho a cada vez que tento ter certezas, porque não saber ao certo é estar certo de querer saber. Eu sou a revolução de mim mesmo a cada segundo, eu não consigo acordar dois dias seguidos e ver o Sol no mesmo lugar. O verdadeiro presente do Sol é que ele me deixa ser uma manhã de luar.

Eu já vivi histórias de amor que matariam a maioria das pessoas. Eu já enlouqueci por alguém até que isso virasse uma parte de mim mesmo. Eu já chorei até achar que as lágrimas tinham acabado, mas na verdade sempre são infinitas, as lágrimas. Os sorrisos, esse sim são limitados. Sorrir, pra mim, sempre foi muito mais sério do que chorar. Eu que sempre quis ser levado a sério, embora nunca tenha me levado a esse ponto. Eu que ando distribuindo sorrisos, às vezes sinto falta de lágrimas nos olhos, mesmo que o meu corpo grite por socorro. Eu também já senti medo do escuro, já senti a minha respiração parar, já tive pavor de que o dia seguinte nunca mais chegasse. Eu também já fechei os olhos imaginando o perfeito amanhã, embora ele nunca tenha chegado. O perfeito não é descobrir que tudo aconteceu exatamente da forma que queríamos, mas descobrir que o que queríamos muitas vezes nós nem esperávamos. Eu já acreditei que o amor fosse salvar o mundo, já escrevi poemas de amor, já odiei o fato de amar. Eu descobri que muitas vezes aquilo que mais condenamos é o que mais temos vontade de ser. O nunca é só uma tosca defesa que criamos em nossa mente, porque realmente não há nada na vida que nós nunca faríamos, mas sim algo que lutamos a vida toda pra nunca fazer.

Eu já me apaixonei até perder completamente a razão. Já senti que não seria nada sem a pessoa que amava, que toda a minha existência dependia apenas dela. Na verdade, o amor sincero não é aquele que te faz colocar a condição da sua existência na outra pessoa, mas aquele que te faz descobrir que há uma parte de você mesmo que você jamais supôs existir. O amor fragmentado, difundido. Ninguém é de ninguém, e eu te amo do momento em que isso mudar a minha vida até o momento em que o meu equilíbrio voltar. Amor e equilíbrio estão de mãos dadas nos contos de fadas, onde talvez tenham vivido felizes para sempre. Aquela história de que não se ama duas pessoas ao mesmo tempo? Eu descobri que não existe alma gêmea, e o que te faz querer apenas uma pessoa não é o fato de ela ser tudo pra você, mas sim o fato de que em algum ponto de você ela faz algum sentido. O amor fragmentado, assaltante, assustado. E por isso mesmo ruim? Não, por isso mesmo sagrado. Os anjos mais bonitos são aqueles que já sentiram o gosto de terem as suas asas cortadas. Só sabe dos doces sorrisos quem já provou o salgado das lágrimas.

Eu já beijei escondido pra que ninguém soubesse. Já senti vergonha alheia. Eu já tive nojo de me olhar no espelho, quando a última coisa que me agradava sobre mim era eu mesmo. Eu já dormi pra que o dia passasse mais rápido, já chorei pelo passado, presente e futuro; já quis saber como é estar morto. Deus também já foi a minha última esperança. Eu já vi um segundo mudar toda uma vida. Eu já vi uma pessoa qualquer de hoje se tornar a pessoa mais importante amanhã. Eu já confiei em alguém que havia acabado de conhecer, e nunca confiei em certas pessoas que já conhecia há anos. Tempo é só uma questão de memória, ele só existe enquanto você se lembrar.

Eu já me achei diferente de tudo que eu já tinha visto. Eu já fui entendido pelos outros mais do que por mim mesmo. Eu um dia já fui a pessoa mais importante do mundo pra alguém. Também já me senti completamente inútil. Hoje me acho impertinente, impertencente. Eu que já procurei tragar pedaços de mim mesmo em diferentes cigarros, bebidas, pessoas ou drogas. No final, as diferenças são todas clonadas. Apenas poucas chances de se encontrar. Porque o verdadeiro eu talvez se encontre por aí, perdido em alguma dose de qualquer coisa...

Eu já quis explodir a minha cabeça e dar de presente a quem quisesse enlouquecer. Já fiz poemas de amor, mas não sei se sei amar. Eu já tive amizades que duraram meses e foram mais verdadeiras do que aquelas que duraram anos. Eu descobri que o amor verdadeiro abarca o sofrimento, a culpa, o ódio, mas principalmente a intensidade. Os meus olhos nunca brilharam, eles sempre pegaram fogo. Bom dia, boa tarde e boa noite são as três fórmulas de um dia impossível. Eu já dei sorrisos quando o que mais queria era chorar. Eu nunca quis ser adorado por todos; é bom ser odiado pra que se tenha claro que ninguém é perfeito. Eu nunca quis ser, nunca fui e dificilmente serei aquele que todos gostam. Eu sempre me chamei à atenção, e embora goste dos holofotes, às vezes eles me assustam. O que eu mais queria hoje é sumir. Amanhã talvez seja aparecer com força total. O intrigante? É que é tudo verdade. As mudanças de opinião também existem, diferente do que pensam os caçadores de hipocrisia. Eu já deixei há muito de falar sobre o que eu não sinto. Eu já falei muito sobre o que não entendo. Hoje eu só entendo o que posso sentir.

Eu já quis contar a minha vida inteira pra alguém. Já quis ser outra pessoa algumas vezes, antes de descobrir que eu posso ser de diferentes maneiras a mesma pessoa. Eu tenho amigos que mudaram a minha vida, e tenho saudade de outros que se foram dela. Eu sei que amizade verdadeira é aquela que sobrevive mesmo quando as afinidades se perderam pelo caminho. Eu já chorei ouvindo músicas que mudaram a minha vida, e achei que elas tinham sido feitas especialmente pra mim. Os meus heróis são loucos, atormentados, marginais, incompreendidos, construtores do inferno dos anjos. Eles nunca salvaram o mundo, mas mudaram a minha vida. Há uma parte doce do desequilíbrio, da desmesurada melancolia. Há algo de atraente na escuridão. A incerteza é o locus da poesia. Importa mesmo se todos nós morrermos? Eu já sorri por coisas que te fizeram perder o sono...

Eu já me senti faltando três segundos pra tudo acabar. Eu já recolhi verdades na parte podre do dia, na vergonha do fazer escondido, no sonho alcoólico. Eu já tive que criar muita coragem pra dizer que eu amava alguém. Até hoje sinto assim, porque o amor pra mim é a maior coisa do mundo, e não cabe numa só pessoa, num só coração, numa só frase. O amor tem a arte de se perder para que nós possamos nos encontrar.

Eu já fugi de situações em que deveria ter ficado, já permaneci em ocasiões que deveria ter saído. Eu já ganhei presentes do Sol, beijos multifacetados, amores irrealizados. Em verdade, o impossível sempre me encantou. Eu me apaixono pelo que pouco provável. Eu sou aquele cara que está no meio do furacão com mil poemas no bolso e um sorriso de vida no rosto, dançando de um lado pro outro, sem saber aonde isso irá me levar, perdendo a cabeça aos poucos, fugindo da realidade, louco, mas adorando a idéia da completa imprevisão. Afinal, se apesar da morte nós estamos vivendo, a possibilidade do improvável só me traz mais vontade de arriscar. Afinal, tudo isso é só a parte de algo chamado vida. Real?

Eu já me despedi achando que nunca voltaria, e também já voltei achando que não partiria jamais. Em algum momento, a única coisa que eu precisei foi ouvir alguém dizer que nunca sairia do meu lado, mesmo que isso seja um exagero. O exagero é o pão nosso de cada dia, é o que faz o real ficar extraordinário. Eu que dificilmente assimilo a realidade. Eu que percebo as coisas quando elas já estão acontecendo. Eu que sou sempre pego de surpresa, com as calças nas mãos e um sorriso lacrimoso no olhar.

Eu já caí e demorei muito tempo pra me levantar. Eu até achei que ficar caído fosse muito confortável. Eu já perdoei dez vezes quem me traiu nove. Eu já fui maltratado pela pessoa que eu mais amava. Eu jamais me recuperarei de algumas dessas quedas, mas isso não significa que não haja mais força, mais coragem, apenas há mais confusão. E há algo sempre novo a descobrir. Envelhecer não é uma questão de ir acumulando respostas. Envelhecer é reconhecer que muitas delas jamais irão existir.

Eu já muitas outras coisas. E muitas outras no futuro terão já sido. O segredo dos anos é que eles não cabem na memória. Quanto ao fim, será sempre um novo começo. O bom da vida é que ela não cabe em palavras.
Não cabe em dezenove tudos, não cabe em dezenove nadas.
Nem em dezenove textos, dias, horas, anos ou cigarros. O tempo, descontado como bem nos entender.
A vida na verdade não nos cabe, somos nós na vida cabendo.
Talvez não haja espaço, talvez alguém nasça sabendo.
E dezenove verdades, nuas, frias, ardendo.
E alguém uma delas já sendo.
Eu. Verdade tão pouco contada, reflexo se transparecendo.
Eu-hoje uma imagem tão fraca...sorrindo, gritando, vivendo.
Um rosto que não foi contado, um corpo de alguém se esquecendo.
Perdido em dezenove mil erros, e dezenove mil partes crescendo.
As diversas partes de um eu,
alguém dezenovesendo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O presente do Sol

Tempos ordinários são chamados de agora. O amargo gosto do único tempo que existe. E a vontade de ir embora. Entre o irrecuperável ontem e o esperado amanhã, o intervalo do tempo presente. E um presente antes fraco, nu, irrealizado. Pelos menos até há pouco, quando qualquer esperança me escorria pelos dedos. Desespero é rebobinar aquele mesmo filme pensando que o fim dele vai mudar. Quando eu e o nada parecíamos uma só coisa; quando o medo de dormir me vinculava ao acordar; quando pequenos apocalipses em curtas doses de agora aconteciam; algo mudou. Agora. Porque eu sei que o único medo que tenho é o de não sentir medo de nada. O tempo de equilíbrio ruiu, e eu quero mais umas doses exageradas de realidade pra me transtornar. O meu alimento é o mundo, mastigado na mente e digerido em palavras. Entre o nada e o infinito, o zero e a lemniscata, haverá alguma diferença? Eu não quero ficar sentado assistindo a vida na televisão, alegria e tristeza servidas em prato feito, eu quero a vida inteira em todo tempo e em qualquer lugar. Eu e as mil formas de mim mesmo se destroçando por completo. A intensa guerra dos eus. Porque no final a personalidade é apenas a sua milésima parte mais insistente. Eu que não sei de felicidade ou tristeza, o que eu conheço é a intensidade. Porque no final, os opostos se desintegram por serem a mesma coisa. O absurdo do paradoxo é que ele é normal. E o mistério das duplicidades. E assim sigo, num sem-saber fazendo. Eu confesso que morri a cada vez que caí, a cada vez que chorei, a cada vez que perdi. Mas a indesistência é a ressurreição da alma, e eu me enganando que só vivo uma vez. Eu que tenho sérios problemas com a assimilação da realidade, que ainda me cegava com a luz do sol. O óbvio é muitas vezes a coisa mais bem-escondida do mundo. Mas agora o presente trouxe parte de mim de volta. Eu percebi que às vezes, no fundo, o que a gente menos esperava era na verdade aquilo que a gente mais queria. E a resistência a seguir em frente e se jogar no mar da vida. Mas eu quero mais é que o mar esteja revolto, que os perigos estejam escondidos pelo caminho, e os caminhos estejam encobertos pelo perigo. E que a dúvida esteja sempre comigo. Porque a certeza é a cegueira da existência. E eu estou de olhos bem abertos...E por isso tenho que ter mais cuidado. É que a sanidade há muito virou uma antigo atributo alheio, e a mente gesta idéias em constante abortar. A mentalidade razoável eu deixo pra vocês, que dispensam sorrisos pro que me faz sofrer. Há uma lágrima em cada palavra. O motivo agora é outro. E antes que eu me esqueça. Beijos verdes já me enchem de esperança.

Há uma gota de nós que preenche o oceano. O silêncio é eterno diante da verdade. Quando eu fecho os olhos, eu só enxergo o mar, eu só escuto o sol. Eu descobri que a verdade é o reflexo da ignorância. Um espelho, um olhar. Bonito mesmo é se olhar no mar e descobrir que o que ele leva uma vez não traz nunca mais. Exatamente como nós. O passado está perdido em algum canto desse mar; um eu-anterior, inatingível. Eu, ser anti-facilidades, cego com a luz do sol. Nunca cometi o erro da clareza, quero antes o saber da incerteza. Sempre vi estrelas do mar no céu. Sempre estive pronto pra chorar. Sempre vi algo de belo na morte. Mas nunca morri de amor. O impossível é só um nome bonito pro irresistível. O absurdo é só um grande desafio. O ordinário é um espetáculo disfarçado. Eu nunca mais vi o horizonte. Eu nunca mais fui entendido. Nunca mais tive sentido...nunca mais.

Alguma coisa que acontece assim de vez em quando sempre em quando e vai chegando me tomando por inteiro e eu crescente desespero não consigo nem pensar porque o medo do começo não é do que não conheço é mais o medo que termine sem ao menos começar por isso eu não sei chorar nem amar nem parar porque eu internado nesse mundo que insistia em não passar em não parar e o medo de dormir pela incerteza de acordar e a escuridão batendo em minha porta à noite e eu gritando por socorro sem ninguém pra me escutar e de jeito nenhum alguém poderia me ouvir porque eu nunca aprendi direito a falar e se você não estava ninguém estava porque só agora eu me ganhei novamente de presente porque havia uma parte de mim mesmo que não era eu e estava perdida em outros pesadelos bicho humano corpo fraco a tosca humanimalidade sonhos partidos pela metade desespero angústia e a luz se apagando e metade de mim dormindo e a outra metade acabando e a hora de voltar nunca existe porque antigos pensamentos que vêm de novo e de novo pra lembrar que mil pontos iguais a mim preenchem a vida e pontos sempre são o fim em meio ao vazio que não vai dar em nada e não adiantava nem tentar porque a vida não é feita de sorrisos na verdade a verde idade já passou um sorriso inteiro um amor verdadeiro relíquias que insistem em se rarificar mas quando o sol apareceu e era realidade eu não pude acreditar porque o sol sempre me cega e eu não entendo o seu brilhar mas dessa vez o meu presente não foi deixado pra depois. Era uma parte de mim mesmo que eu só encontro em nós dois...

Isolamento fictício sempre é cheio de vontades. Um rosto que se petrifica pode voltar a sorrir? O vazio revelará muitos mistérios. As paredes em branco sempre me espantaram. Eu que provei o nada e senti gosto de infinito. O eterno irrealizado esperando preenchimento. Eu acho que, no fundo, eu sou como uma parede em branco. Sempre à espera de algo que possa completar a minha pálida essência. Emparedesendo, somos todos seres a ser. Bonito mesmo é acordar de um sonho e perceber que ele não acabou. Eu que ainda penso estar sonhando, mas onde está o olho fechado? Pelo contrário, eu vi a parte mais profunda de mim mesmo em dois olhos frente ao mar. Eu, droga constante pré-profética, rima perdida, anti-poética. E não importa que anoiteça dessa vez. Não me importam as lágrimas de sangue, porque só os beijos são verdes. Eu sou o mar que vai e volta, a tempestade no dia de Sol. Não precisa me falar nada; eu só escuto com os olhos. E eles já conseguem te ver...

Sempre vinha sozinho. Mas de repente algo mudou. O motivo, verticalmente posto, obviamente ocultado. O nada do céu e o tudo do mar. O céu antes sozinho, errado, imperfeito. Mas é tão óbvio que te cegará. Quando um dia, o céu cansado de ser o nada ,desacompanhado, pôs-se a chorar, e no mais alto desespero deu origem ao mar. Imensidão, totalidade. Tanto que os dois precisavam se juntar. O tudo, o nada, doce ambigualidade. Impossível não seria encontrar o céu com o mar? Foi quando o Sol apareceu, e com pena do céu, lhe trouxe um presente. O céu ganhou do Sol o horizonte, e algo inédito, sentiu-se contente. E céu e mar estariam fadados a se encontrar apenas pelo período de um dia, mesmo sabendo que a cada pôr-do-sol voltariam a se separar. E a escuridão da noite parecia sempre infinita, de modo que cada novo dia era mais um começar. Porque saudade mesmo é a que o mar sente antes do pôr-do-sol. E eu, diante disso tudo, perdido em meio à escuridão, cansado de nunca dormir, cansado de não ver o Sol, de não querer o céu, de não escutar o mar. Mas então o Sol voltou. E sim, eu posso vê-lo. Frágil, complexo, presente. Eu, um nada-céu. E do Sol um tudo-mar. E o horizonte está ali, mas não me importa o impossível. Nasce um novo e lindo dia, que acabou de começar. O horizonte, um intervalo entre o nada e o infinito. O espaço tão vazio entre o céu e o mar perdido. Um espaço de mim mesmo que se encheu ao te achar...